Você provavelmente já ouviu falar que El Clan de Patsy é considerado hoje a cópia mais famosa do Xou da Xuxa. Mas o que pouca gente sabe é que Patrícia Lage “pousou o disco voador” muito antes de a Rainha dos Baixinhos sonhar com uma carreira internacional.
Apesar de existirem inúmeras especulações na internet sobre a origem do programa, ainda há muita confusão. E é exatamente por isso que estou aqui: para esclarecer, de uma vez por todas, como essa história realmente aconteceu, especialmente para você que ainda não entendeu como tudo se desenrolou
Clara Patrícia Lage ou Patrícia Lage, como ficou conhecida na Argentina, iniciou sua trajetória como modelo. Logo chamou atenção e deslanchou na televisão, aparecendo em inúmeros comerciais. Em um único ano, chegou a participar de mais de 25 campanhas publicitárias e ainda estampou diversas capas de revistas.
Em 1973, Patrícia conquistou o título de "Miss Joven Argentina", o que lhe abriu portas para viajar pelo mundo, incluindo uma passagem marcante por Tóquio, no Japão.
Com o tempo, porém, Patricia decidiu deixar a carreira de modelo para se dedicar à televisão como apresentadora. Sua estreia aconteceu em 1985, na emissora ATC, à frente do programa Casa Aurora. A atração tinha um formato totalmente inovador para a TV argentina e fez tanto sucesso que, mais tarde, foi rebatizada como “La Casa de Patrícia”.
Em determinado momento, Patrícia Lage fez uma viagem para Missiones, cidade localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai. Lá, assistindo à televisão local, onde eram exibidos alguns programas brasileiros ela acabou conhecendo o “Xou da Xuxa”. A identificação foi imediata: Patrícia ficou completamente encantada com o formato.
Um ano após o fim de “La Casa de Patricia”, ela decidiu investir no próprio sonho. Juntou dinheiro e veio pessoalmente ao Brasil para tentar levar o programa da Xuxa para a Argentina. Porém, segundo ela relatou anos depois, Marlene Mattos, diretora do programa e empresária de Xuxa na época, explicou que, devido à situação econômica argentina, seria impossível naquele momento levar a produção oficialmente para o país.
Ainda assim, Marlene não colocou obstáculos: vendeu para Patrícia os direitos de reprodução do formato, algo que foi completamente autorizado, o oposto do que muitos acreditam ao supor que se tratou de plágio.
Marlene apenas deixou claro que o “Xou da Xuxa” não poderia ser vendido como formato oficial, pois havia planos de expandir a carreira de Xuxa por toda a América Latina. Mesmo assim, chegaram a um acordo que incluía autorização para regravar algumas músicas da apresentadora.
Segundo Patrícia, em entrevista concedida em janeiro de 2020, Marlene teria dito a ela:
“A Argentina está péssima, o que você vai fazer é perder. Como não queremos perder, não iremos fazer no momento.”
De volta à Argentina, determinada a adaptar o programa brasileiro, Patrícia decidiu que também adotaria um apelido artístico, assim como Xuxa. Foi então que nasceu Patsy. Ela entregou o desenvolvimento visual do programa a uma agência de publicidade, enquanto a cenografia ficou sob responsabilidade de seu irmão, Oscar Lage, arquiteto e publicitário.
Mãos à obra.
Para produzir o piloto, a equipe usou como referência uma VHS da Xuxa, lançada no Brasil em 1987, contendo os melhores momentos do programa. Por isso, até as falas de Xuxa foram adaptadas para Patrícia, assim como a personagem “Madame Caxuxa”, que passou a se chamar “Madame Patsy” na versão argentina.
Todos trabalharam intensamente até a estreia do programa, que aconteceu em 1988, com transmissão pela ATC. Segundo Patricia, em sua última declaração sobre o assunto, o programa teve duração de quase sete meses, indo ao ar de segunda a sexta, às 17h.
Para dar conta da produção, Patricia gravava duas vezes por semana:
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Terças-feiras, das 10h às 18h
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Quartas-feiras, das 12h30 às 17h
A direção ficou nas mãos de Eugenio Gorkin, que mais tarde também trabalharia na versão brasileira da novela Chiquititas, grande sucesso de Cris Morena exportado mundialmente.
Em 2008, no blog Solo Quince Minutos, um usuário questionou se Eugenio, tão conhecido por grandes trabalhos, incluía em seu currículo o programa infantil. O próprio diretor respondeu nos comentários e ainda fez questão de defender a produção:
“Prezado Matías, sobre sua pergunta sobre meu currículo: é muito fácil para um diretor trabalhar com estrelas consagradas, mas é muito mais gratificante dirigir quem está na luta… No caso do Clan de Patsy, tive a grande colega Patricia Lage, uma excelente produção com meus amigos Alonso e María E. Alfonso. Além do desafio de fazer, para mim foi uma experiência maravilhosa que jamais negaria. E, concordando com o relato: NÃO FOI PLÁGIO, e sim a compra de direitos que, como qualquer outro formato adquirido, obriga a recriá-lo o mais fiel possível ao original.
Os cenários são parecidos (não por falta de criatividade, mas por obrigação).
Em resumo: tenho orgulho de ter colocado meu trabalho nesse ciclo.
Saudações de coração. Eugenio Gorkin”
Como o diretor do programa explicou, quando se reproduz um formato, é obrigatório seguir o original quase à risca e isso não é diferente hoje. A própria Xuxa já participou de diversos formatos adaptados: mais recentemente, Xuxa Meneghel e Dancing Brasil, ambos versões de programas estrangeiros; e, no passado, o projeto Xuxa Só Para Baixinhos, fortemente inspirado em produções e artistas internacionais como The Wiggles, Barney e Dragon Tales. Sem contar que boa parte das músicas do XSPB são versões brasileiras de canções estrangeiras.
E tudo bem. Isso não é um problema é absolutamente comum no universo do entretenimento. Mas então, por que com Patrícia Lage a história é diferente? Por que, quando se trata dela, vira polêmica, e quando envolve grandes produções, parece normal?
Só existem duas explicações possíveis: desinformação ou falta de conhecimento sobre o assunto. Ninguém está questionando talento, qualidade vocal ou presença de palco. O ponto é reconhecer que Xuxa se tornou um fenômeno tão grande que naturalmente inspirou produtores e apresentadores de outros países.
O cenário do programa argentino também seguiu essa lógica. Ele foi inspirado no primeiro cenário do Xou da Xuxa (1986), passando por ajustes entre o piloto e as versões exibidas. Até a famosa nave sofreu transformações, tornando-se, na segunda adaptação, ainda mais original dentro do próprio estilo do programa.
O programa também tinha um elenco próprio de personagens que ajudava a construir sua identidade. As Bastoneras Mentita, Cerecita, Bonbon e Cremita cumpriam o mesmo papel das Paquitas: organizavam as crianças, animavam o palco e acompanhavam Patsy nas performances.
Havia também Grillo e Bichi, dois assistentes de palco que interagiam diretamente com a apresentadora durante toda a atração, lembrando muito a dinâmica entre Dengue e Praga no Xou da Xuxa.
Outros personagens completavam o universo infantil, como Tota, uma abelhinha que sobrevoava o palco, e posteriormente Los Glups, pequenos seres vindos do planeta natal de Patsy, que só ela conseguia compreender.
Seguindo o estilo do formato original, Patsy também criou um apelido carinhoso para seu público: chamava as crianças de Patsytos e Patsystas, em clara referência aos “Baixinhos” de Xuxa. Ela ainda tinha dois bordões: o “Patsy Beijo” e o mais famoso de todos, usado até hoje: “Guachi Gual!”. Segundo Patrícia, esse último surgiu em um encontro com amigos adultos e não com crianças, como muitos acreditavam.
Mas nem tudo foi perfeito. De forma anônima, uma das Bastoneras deixou uma possível indireta para Patricia no mesmo site onde o diretor Eugenio Gorkin havia comentado anteriormente. Ela escreveu:
“Fui uma das muitas Bastoneras que passaram pelo programa. Tenho muitas recordações lindas e algumas nem tanto. Eugenio, o diretor, que eu quase não via, mas sempre escutava, parecia ser muito profissional. Sobre os demais, aprendi que nem tudo que brilha é ouro.”
Para impulsionar o sucesso do programa, Patrícia Lage firmou contrato com a gravadora RCA para produzir dois discos. O primeiro álbum foi gravado entre abril e junho de 1988, nos estúdios La Isla, sob o selo ATC Producciones, em Buenos Aires.
O disco continha dez faixas:
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Cinco eram versões de músicas da Xuxa,
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Cinco eram inéditas, algumas com participação da própria Patricia na composição.
Mesmo as faixas inéditas carregavam referências ao universo musical da Rainha dos Baixinhos. Um exemplo é “Pat Sip”, música cantada por Patsy ao descer de sua nave, uma mistura de elementos de “Amiguinha Xuxa” com “Dança da Xuxa”.
Curiosamente, uma canção prevista para o álbum acabou ficando de fora: “Los Chicos del 2000”. Outro detalhe peculiar foi o uso de um sample não creditado de “Sapeca”, música de Mara Maravilha, na faixa “Ben Ben”. Não por acaso, músicas da Mara também tocavam como fundo musical durante o programa de Patsy. Só para contextualizar: Mara Maravilha também era uma apresentadora infantil brasileira aos moldes da Xuxa.
O segundo disco, lançado em dezembro, chamou atenção já pela capa: Patricia recriou a famosa pose do álbum “Xegundo Xou da Xuxa”, o que fez a arte viralizar diversas vezes como meme na internet. As gravações aconteceram entre outubro e novembro de 1988, nos estúdios Íon, em Buenos Aires.As músicas foram oficialmente registradas em 14/12/1988, enquanto as fotos do álbum ficaram por conta de Guillermo Cimadevilla e as ilustrações foram produzidas por Cristina Ghetti.
Nessa nova produção, das 11 faixas, apenas quatro eram versões:
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“Amiguita Patsy” e “Mis Queridos Patsos”, gravadas inicialmente para o piloto do programa;
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“Nosotros Somos el Mañana”, versão de “Nós Somos o Amanhã”, da Xuxa;
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E uma versão autorizada da música “Vem Brincar Comigo”, de Mara Maravilha.
As outras sete faixas, embora inéditas, seguiam majoritariamente inspiradas no universo musical da Xuxa. Exemplos disso são:
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“El Sueño de Patsy”, que carrega a mesma mensagem de “Campeão”;
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“La Banda de Patsy”, que traz a mesma proposta de “Banda da Xuxa”.
Apesar do empenho, do investimento e da boa repercussão, o programa enfrentou dificuldades externas. Com as frequentes quedas de energia no país, a produção não resistiu e, após pouco tempo no ar, precisou se despedir com um inevitável “beijinho beijinho, tchau tchau”.
Apesar de todo o empenho, do investimento e da boa repercussão, o programa acabou enfrentando obstáculos externos que fugiam completamente do controle da equipe. As constantes quedas de energia no país prejudicaram a produção e, depois de pouco tempo no ar, a atração precisou se despedir com um inevitável “beijinho beijinho, tchau tchau”.
Com o fim do contrato com a ATC, Patricia já havia assinado com o canal Tele Dos, que enxergava claramente o sucesso inesperado que o programa havia conquistado em tão pouco tempo. Infelizmente, o novo projeto não se concretizou.
Ainda assim, o impacto foi tão grande que muita gente chegou a acreditar que Xuxa havia copiado Patricia quando levou seu programa de forma grandiosa para a Argentina com o “El Show de Xuxa”.
Em uma entrevista concedida em 1992 ao canal Fax, Patricia revelou um episódio triste nos bastidores da história. Ela contou que havia feito um acordo para exportar as fitas do programa, mas a ATC simplesmente começou a apagá-las. A justificativa foi direta e desanimadora: “É do Estado, é por isso que acontece.”
A emissora alegou não possuir nenhum arquivo do programa, deixando claro que boa parte do material havia sido perdida para sempre.
Infelizmente, Patricia Lage faleceu em 15 de outubro de 2023. E é aqui que deixo registrada minha homenagem mais sincera. Porque, sim, talvez eu seja o maior fã de Patricia Lage. Fui fã numa época em que quase ninguém compreendia sua proposta de levar alegria às crianças argentinas que não tinham uma “Xuxa” para chamar de referência.
Fui fã numa época em que praticamente não existiam registros sobre ela e eu pagava caro por materiais que hoje circulam livremente pela internet, convertendo moeda, pesquisando, insistindo, pois sou brasileiro.
Fui eu o primeiro a colocar arquivos, registros e informações inéditas sobre ela online.
Fui eu quem passou anos em contato com o pessoal dos arquivos da ATC para que, hoje, programas em HD finalmente estivessem disponíveis.
E faço isso não por obrigação, nem por nostalgia vazia, mas por respeito, admiração e carinho genuíno por quem Patricia foi e pela história que deixou marcada.
Patricia, todo meu amor, respeito e gratidão. Guachi Gual.
